Scroll

O que há por trás (e por dentro) da caixa verde que reúne funkeiros e afins e conseguiu ‘invadir’ a lista das mais ouvidas de 2024, dominada pelo sertanejo

por_Leonardo Lichote do_Rio

O que há por trás (e por dentro) da caixa verde que reúne funkeiros e afins e conseguiu ‘invadir’ a lista das mais ouvidas de 2024, dominada pelo sertanejo

por_Leonardo Lichote do_Rio

Em meio aos quatro hits sertanejos que dominam o ranking das cinco músicas mais tocadas no Brasil em 2024, há um invasor. Um bonde funkeiro invasor, na verdade. A faixa coletiva “The Box Medley Funk 2” — que reúne MC Cebezinho, MC Laranjinha, MC Tuto e MC Brinquedo — ficou com o quarto lugar no levantamento feito pela Pró-Música, entidade que representa as principais gravadoras e produtoras fonográficas do Brasil. A faixa também foi apontada como a mais tocada no Spotify e o vídeo mais visto do YouTube no ano.

Como o numeral no título indica, “The Box Medley Funk 2” faz parte de um projeto maior: The Box. Com quase seis milhões de ouvintes mensais no Spotify, desde 2020 a The Box já lançou 13 medleys, sendo oito dedicados ao trap/rap (a série “The Box Medley”) e cinco ao funk (“The Box Medley Funk”). O formato é simples: os artistas reunidos, gravando ao vivo suas rimas, todos dentro de uma enorme caixa verde — daí o nome The Box.

Sertanejo não faz parte do meu conceito, e não compactuo com a forma como o mercado deles funciona.

Felipe Moda, criador da The Box

Descrito dessa forma, pouca gente apostaria no sucesso avassalador de um projeto cuja grande originalidade é ser gravado numa caixa verde — afinal gravações coletivas como essas, conhecidas também como cyphers, fazem parte da cultura hip hop há anos. Mas Felipe Moda, paulista de 24 anos idealizador e fundador da The Box, apostou na sua intuição e batalhou pra realizá-la no melhor esquema “faça você mesmo”.

“Tive três empregos ao mesmo tempo”, lembra. “Vendia óculos de sol, trabalhava em call center e vendia pão de mel na minha escola. Meu pão de mel era tão bom que, mesmo sendo proibido vender na escola, a diretora encomendou pro aniversário da filha dela. Assim, fui juntando dinheiro e planejando cada detalhe.”

“Cada detalhe” não é força de expressão. Primeiro, Felipe criou o conceito e toda a identidade visual da The Box. Fazia postagens misteriosas para gerar curiosidade, mas na verdade elas tinham que ser misteriosas pois ele não tinha ainda nenhum artista confirmado.

Ele mesmo entrou em contato com os artistas um a um, para saber cachê e condições de cada um — passagem, hospedagem. Com a planilha detalhada dos gastos necessários para fazer o primeiro vídeo, começou, então, a juntar dinheiro:

“Fui economizando e fechando as participações aos poucos. Tinha uma lista na minha parede com tudo que eu precisava, e a cada grana que eu conseguia eu dava check num item: uma passagem de ônibus, um aluguel de equipamento… Foi assim até eu conseguir juntar tudo para a primeira gravação."

foto_Divulgação
Artistas participantes do projeto: criatividade e variedade dentro da caixa
Artistas participantes do projeto: criatividade e variedade dentro da caixa

APRENDENDO NA PRÁTICA. MESMO

Tudo marcado, estúdio pronto, faltava mais um “detalhe”. O primeiro contato real que Felipe teve com a música e o audiovisual foi no set de gravação:

“Eu nunca tinha visto uma câmera na minha frente, nunca tinha segurado um microfone, não sabia nada sobre direção, produção, estúdio”, conta Felipe, que acabou se tornando diretor ali por falta de alguém melhor para a tarefa. “Hoje em dia, apesar de não ter diploma, sou um diretor de cinema. Faço todos os roteiros da The Box, dirijo, monto todos os times… Me considero um artista, mas minha arte não é cantar ou fazer beats. É criar conceitos. Quando conheci o trap, percebi que faltava algo: não existiam medleys de trap no Brasil. Pensei: ‘Tenho que fazer isso’. Mas quem poderia imaginar que uma caixa verde com artistas cantando dentro daria certo? Isso veio da minha visão artística.”

A estreia como diretor — e como tudo mais — deu certo. O canal da The Box tinha apenas 400 inscritos no lançamento do “The Box Medley”, em 2020. Em quatro dias, o vídeo alcançou um milhão de views. A intuição que dispensa análises de mercado dava mostras de estar afiada. Nada ilustra mais a maneira como funciona o pensamento de “marketing raiz” de Felipe do que a inspiração que moveu a escolha por uma caixa verde como centro de sua ideia:

“‘Os Simpsons’ é meu desenho favorito, e sempre me marcou o fato de que, quando vemos um personagem amarelo, automaticamente associamos a eles. Queria algo semelhante para a The Box. Hoje, quando as pessoas veem o verde, já sabem que é nosso projeto.”

Mais do que a força imagética da caixa verde, é inegável que a curadoria do projeto tem um apelo enorme junto a seu público. Felipe escolhe em sua maioria figuras do underground do rap, do trap e do funk, ou seja, nomes já fortes ou promissores nesse meio. Nesse sentido, a diferença é marcada para outro projeto coletivo de sucesso no segmento, o Poesia Acústica, que já teve Filipe Ret, BK, Xamã — e mesmo artistas de fora do universo rap, como Ana Castela, Gloria Groove e Marina Sena.

“A The Box é mais rua, a gente fala diretamente com o público periférico. O Poesia Acústica tem uma abordagem mais comercial, e eu respeito, mas nosso conceito é bem diferente”, avalia o produtor, que acrescenta que a The Box não faz love song (rap romântico, terreno caro ao Poesia Acústica) e nunca trabalharia com artistas do sertanejo. “Sertanejo não faz parte do meu conceito, e não compactuo com a forma como o mercado deles funciona. Já recusei propostas e, sinceramente, não vejo nenhuma conexão entre o que faço e o que eles fazem. O Brasil tem várias culturas dentro dele, e o sertanejo tem um espaço gigante, mas não é algo que me interessa.”

Mas a The Box não fecha as portas para artistas do rap/trap ou funk mais próximos do mainstream afinados com seu conceito, explica Felipe. Ele cita o exemplo de Oruam, que deve participar de um dos vídeos em breve:

“Ele está doido pra fazer, mas eu falo: ‘Vamos trampar, mas eu vou tirar você dessa sua patota do Rio de Janeiro pra você gravar com um moleque lá do Nordeste’. A gente pega essa mistura, junta tudo na caixa verde, sai uma coisa linda. Acho que esse é o maior motivo do nosso sucesso, saber com quem trabalhar, quem botar junto, ter esse feeling. E também o fato de que, na hora de gravar, os artistas têm liberdade pra rimar sobre os temas que quiserem, cada um sem saber dos versos do outro."

NA RUA, NA CHUVA, NA NEVE...

Atualmente preparando a estreia do “The Box Medley 9”, o projeto planeja juntar, pela primeira vez nesses quase cinco anos de atividade, artistas do rap/ trap e do funk no mesmo vídeo. Outro plano pro futuro, esse mais ambicioso, é o “Pense Fora da Caixa”. Em produção há dois anos, ele consiste em viajar com uma caixa verde desmontável de 3 metros de altura, e montá-la nos mais diversos cenários. Já gravaram na cachoeira, na praia, no alto de uma favela…

“Vamos gravar até na neve!”, conta Felipe, adiantando a viagem que farão à Argentina com a estrutura. “Cada vídeo tem só um artista, mas mantemos a característica do ao vivo. Serão 30 no total, que depois vamos lançar um por dia, ao longo de um mês inteiro. No fim, elas serão reunidas num álbum.”

Next
Next