por_Eduardo Lemos Martin • de_Bath, Inglaterra
Uma banda sobe ao palco e olha para a plateia: metade dela é formada por pessoas, metade por robôs. Parece uma distopia, mas é mais ou menos que isso está acontecendo na internet atualmente.

Dani Ribas
De acordo com o Relatório Imperva Bad Bot de 2024 da empresa de segurança cibernética Thales, quase 49,6% de todo o tráfego digital global foi gerado por robôs. Ou seja, a cada duas ações que acontecem no mundo virtual, uma não foi realizada por uma pessoa. A desumanização da internet também afeta e preocupa a indústria musical, que nas duas últimas décadas apostou todas as sua fichas no digital e responde pelo maior parte do faturamento do setor.
“As plataformas estão cheias de bots, pois pessoas inescrupulosas entenderam que plays falsos são uma forma de desviar dinheiro do streaming para o próprio bolso. E evidentemente isso prejudica todo o ecossistema, uma vez que o sistema de pagamentos é pro-rata, um rateio entre tudo o que foi arrecadado dividido por tudo o que foi reproduzido", explica Dani Ribas, socióloga brasileira e especialista em tendências do mercado musical.
Como explica Dani Ribas, se há mais reproduções (legítimas ou falsas), o “bolo” é dividido por mais gente, diminuindo o valor do play para todos os titulares legítimos. “É improdutivo trabalhar para aumentar a quantidade de plays se o valor do play diminui. Em tese, seriam necessários cada vez mais plays para se obter o mesmo valor de meses anteriores. A conta não fecha”, ela diz.
Segundo Ribas, é por isso que as grandes gravadoras e as plataformas estão discutindo a reformulação do streaming - até as majors, que também dependem do valor individual do play, estão perdendo dinheiro com os plays falsos:
“O streaming 2.0, como vem sendo chamado, tenta 'dividir o bolo' entre menos gente. Como? Remunerando artistas a partir de 1000 plays mensais, limitando música feita por IA, eliminando faixas de ruído como chuva, e também caçando bots e plays falsos. Então, a busca por fraude não é apenas um gesto positivo para com o setor artístico: é algo que, para surpresa de ninguém, beneficia os catálogos das próprias majors. Não há benevolência na indústria fonográfica.”
A PROCURA POR AUTENTICIDADE
“A fraude de streaming é um problema sério, mas não acho que nada perto dessa quantidade de tráfego em streams (50%) seja fraudulento", diz Chris Dalla Riva, jornalista que pesquisa a intersecção entre música e dados e é autor da newsletter “Can't Get Much Higher”. “Mas os artistas estão profundamente preocupados com a autenticidade (dos plays)..”
Os “bots”, como são chamados em inglês, são programas de software que executam tarefas repetitivas na internet. Há os “bots bons” e os “bots maus". No primeiro caso, estão os chats de atendimento automatizado de empresas e até mesmo assistentes virtuais como Alexa e a Siri. Já os vilões são os robôs que imitam o comportamento humano e conseguem burlar as defesas digitais. Segundo o relatório da Thales, os ‘bad bots’ já tomaram conta da Irlanda, onde respondem por 71% do tráfego, e da Alemanha, onde chegam a 68%. Nos EUA, eles já são 34%. Não há números oficiais para o Brasil.
A infestação de bots maus faz com que cada vez mais gente no mercado musical desconfie dos números e métricas que as DSPs apresentam.
“Eu gostaria de acreditar que a quantidade de plays que aparece nas plataformas é verdadeira, mas elas sequer permitem que auditores independentes averiguem se os números estão sendo computados corretamente. Isso gera uma dúvida enorme na cabeça do artista quando ele recebe o relatório da sua distribuidora", critica Lucas Winter, CEO da Klave, plataforma de gestão de fãs para artistas, selos, gravadoras e profissionais de marketing musical. Artistas como Pablo Vittar e Fresno já passaram por lá.
De acordo com Winter, a raiz do problema é o modelo de distribuição pro-rata utilizado pela maioria das plataformas. Uma mudança para o ‘user-centric’ (em que o dinheiro de uma assinatura vai só para os artistas ouvidos pelo assinante) resolveria o problema dos plays falsos, por exemplo. “Nesse caso, o fraudador, ao criar 'fazendas de plays', estaria pagando os plays fraudados com seu próprio dinheiro. Ou seja, não faria mais sentido gerar streams falsos.”
CRISE DE CONFIANÇA
A robotização da internet não deixa ressabiados apenas os artistas e selos. Para muitos programadores de festivais, por exemplo, a quantidade de reproduções de um artista ou faixa traz mais validação do que qualquer outra métrica online ou no mundo real. Devemos parar de confiar tanto nesses números?
“É complicado. Resumindo? Sim, eu queria que pudéssemos parar de depender de métricas públicas que não têm nenhum contexto real. Mas, igualmente, entendo completamente por que os promotores etc. confiam nesses números. É tudo o que eles têm. O que mais eles poderiam estar usando? Essa é realmente a pergunta a ser respondida aqui", diz Darren Hemmings, diretor da agência de marketing musical britânica Motive Unknown, que trabalha com artistas como Robbie Williams e Moby e gravadoras como a BMG.
Um caminho de maior transparência seria dar ao artista contato direto com o seu fã. Plataformas mais novas, como o Substack, permitem que criadores de conteúdo acessem os emails de seus assinantes ou seguidores e até carreguem esse mailing para um site concorrente. Totalmente diferente de como operam as grandes empresas de streaming, em que um artista pode ter 1 milhão de ouvintes mensais sem conseguir se comunicar com nenhum deles.
“Os dados de transmissão são poderosos. Se você vê que muitos dos seus ouvintes estão concentrados em Omaha, Nebraska, talvez sua turnê deva parar por aí. Dito isso, métricas online não são a mesma coisa que a capacidade de fazer as pessoas irem aos seus shows. Acho que veremos mais plataformas oferecendo algo como o Substack, mas não acho que seja uma prioridade para os grandes streamers, como Spotify e Apple Music", observa Dalla Riva.

Chris Dalla Riva
Para o jornalista André Felipe de Medeiros, criador do site Música Pavê, professor e pesquisador do uso de IA na música, a desconfiança “é resultado de várias escolhas feitas ao longo desses anos".
“Por exemplo, o de escutar meia dúzia de empresas que convenceram os artistas de que eles deveriam, em primeiro lugar, estar presentes em uma dinâmica de fotos e vídeos tão obrigatórios quanto artisticamente irrelevantes, nos quais seguidores te consomem como produto, mas não há um público que deseja te escutar. É a precarização não só do produto ‘música’, mas também do fazer artístico.”
Nenhuma das fontes ouvidas pela UBC acredita que a mesma porcentagem de bots na internet esteja presente nas plataformas de música. A razão para isso é que há incentivos fortes para que as plataformas evitem interações de bots.
“Se houver um monte de postagens falsas no Facebook, isso realmente não afeta seus resultados financeiros. Mas os serviços de streaming pagam royalties por cada stream, então eles realmente não querem pagar por streams falsos e gastar muito tempo tentando detectá-los. Na verdade, existem empresas bem conhecidas como a Beatdapp que tentam detectar fraudes para a indústria em escala", lembra Chris Dalla Riva.
Mas as histórias de fraudes não param de pipocar há pelo menos uma década. Elas vão desde artistas e agências comprando espaço em playlists, uma prática ilegal, até as chamadas ‘fazendas de plays', que usam robôs para simular a audição de faixas; de artistas que não existem e têm milhares (às vezes milhões) de plays até a recente invasão de faixas criadas por IA. As empresas dizem que estão de olho e, volta e meia, anunciam medidas com promoter resolver esses problemas.
“Mas é como enxugar gelo", diz Dani Ribas. “O problema não é o bot ou o algoritmo. O problema é a qual propósito eles servem, que é o modelo de negócio calçado na publicidade online e na economia da atenção. Enquanto não tivermos legislações nacionais e mundiais que protejam a privacidade online dos usuários da rede e limitem algoritmos e bots de coleta desses dados pessoais, lutaremos ingloriamente contra plays falsos.”
E A IA DEIXARÁ TUDO AINDA MAIS COMPLEXO
Outro desafio presente é a popularização da inteligência artificial, que, ao que parece, assusta até o chefão do ChatGPT, Sam Altman. Ele criou um aplicativo chamado World, que anda pelo mundo coletando as íris das pessoas e, com isso, permitindo que elas provem que são humanas, e não bots, quando usam a internet.
“É distópico como o inferno, e precisamos ser muito cautelosos com isso", opina Darren Hemmings, da Motive Unknown. “Mas, não, não acho que isso alcançará a indústria musical.”
Mesmo assim, lutar contra a automatização dos processos será uma das missões do mercado musical digital daqui em diante. “Por muitos anos, muitos artistas entenderam que precisavam produzir seu trabalho de uma certa forma, em um determinado molde. Esses trabalhos foram apresentados para máquinas que entenderam esses padrões e, facilmente, conseguiram reproduzi-los. Por isso que, hoje, não é necessário um músico medíocre para se criar uma música genérica. Em paralelo, há o desenvolvimento de robôs que realizam automaticamente as mais diversas tarefas, como dar o play para reproduzir músicas. Nesse cenário contemporâneo (e um tanto distópico), não é necessário que uma pessoa produza uma faixa, nem que outro indivíduo acesse-a para computar mais uma execução", explica André Felipe de Medeiros.
As plataformas estão cheias de bots, pois pessoas inescrupulosas entenderam que plays falsos são uma forma de desviar dinheiro do streaming para o próprio bolso. E evidentemente isso prejudica todo o ecossistema.”
Dani Ribas, socióloga e especialista no mercado musicalA era da automatização é, segundo ele, “a era das consequências". “Não fomos sagazes há dez anos para entender que isso poderia acontecer, ou não demos ouvidos a quem disse que aconteceria, e vivemos hoje a consequência do modelo estabelecido por meia dúzia de empresas. Nessa dinâmica, quem tem acesso à automatização vai também lucrar. Ou seja, mais uma vez, quem produz por fora das grandes estruturas financeiras terá ainda mais dificuldades para encontrar seu espaço nesse ecossistema. A consequência de ter apostado todas as suas fichas naquela meia dúzia de empresas é agora ver-se fora de uma dinâmica financeiramente sustentável.”
“Precisamos aceitar que as artes, a cultura e a big techs - que Altman tipifica - nunca tiveram interesses tão divergentes. Deveríamos definir nossa própria agenda para autenticidade aqui, não permitindo que o Vale do Silício faça isso por nós", aconselha Darren Hemmings. •