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MARCIA

CASTRO

Em novo disco, ela celebra a riqueza e a negritude do samba reggae: ‘Um estilo basilar, ancestral, da Bahia’

por_Chris Fuscaldo do_Rio

Em novo disco, ela celebra a riqueza e a negritude do samba reggae: ‘Um estilo basilar, ancestral, da Bahia’

por_Chris Fuscaldo do_Rio

Cria de Salvador, Marcia Castro cresceu ouvindo samba reggae. A essência do gênero sempre permeou seu trabalho, mas ela circulou por outras sonoridades e experimentou de tudo na MPB antes de decidir dedicar um álbum inteiro àquele que é de fato um estilo “basilar, ancestral” da Bahia. Em “Roda de Samba Reggae, Vol. 1”, a cantora celebra os ícones da música baiana que consagraram o samba reggae mundialmente, como os blocos afros Olodum, Ilê Aiyê e Muzenza, as bandas Mel e Reflexu's, os cantores e compositores Carlinhos Brown e Margareth Menezes, entre outros.

“O samba reggae é cultura preta, foi criado por pessoas pretas, esse é o ponto de partida”, diz a cantora, que lançou seu primeiro álbum em 2007 e, neste novo trabalho, revisitou sua história e memória, buscando celebrar o que ela chama de “patrimônio imaterial”.

foto_Pedrita

Marcia: valorização da cultura afro-baiana

Por que gravar um álbum dedicado ao samba reggae?

MARCIA CASTRO: Gravar um disco dedicado ao samba reggae foi um desejo de me reconectar com as minhas memórias de infância e adolescência, das músicas que eu ouvia, e também um jeito de homenagear os grandes mestres, os grandes blocos, os artistas que edificaram toda a construção dessa música afro-baiana, que levou a música baiana contemporânea para além das fronteiras do nosso estado e do nosso país. Então, essa música basilar, essencial, essa música ancestral, que pulsa ainda na Bahia, que torna a nossa cultura identitária muito forte e resiliente, ela merece ser relembrada, revivida, atualizada, para que esse patrimônio imaterial continue sempre vivo e aceso.

Como foi o processo de seleção das músicas?

Foi bem difícil, porque como eu escutava muito, tanto quando criança como quando adolescente, tenho muitas memórias de muitas músicas, várias que foram hits na época, outras que eram lados B... Selecionei primeiro umas 50 músicas e, depois, fui decupando para chegar a essa seleção do volume 1. Cheguei num apanhado que considero dar conta de várias atmosferas que construíram o samba reggae: além do próprio samba reggae, o samba, o samba de recôncavo, o reggae e, também, alguns outros gêneros musicais que perpassam ali esse momento da música baiana.

Acho que a célula primeira da axé music é o samba reggae. E, no início do movimento, muitas coisas, como o tambor, eram a figura central.

Marcia Castro

Qual é a sua relação com Mestre Neguinho do Samba?

Eu não tive a grande honra de conhecer o mestre Neguinho do Samba, mas eu tenho a honra de conhecer o seu filho Anderson do Samba, que continua o seu legado, e com quem tenho muitas trocas musicais. O Anderson participou da gravação ao vivo da “Roda de Samba Reggae Volume 1”. É um grande músico, tem projetos sociais cujo enfoque é continuar o aprendizado, o legado do pai dele, através do ensino do samba reggae para jovens de comunidades periféricas.

Você concorda que o samba reggae acabou bastante negligenciado depois do estouro da axé music? Onde o gênero se encontra? E como ele está hoje em dia, na Bahia e fora de lá?

A axé music é completamente influenciada pelo samba reggae. Acho que a célula primeira da axé music é o samba reggae. E, no início do movimento, muitas coisas, como o tambor, eram a figura central. Até porque era assim no samba-reggae. Mas, ao longo do tempo, quando o gênero musical começou a ficar muito mercantilizado, o tambor começou a sair de cena. A percussão, o aspecto preto da música, começou a perder a centralidade. E a cultura negra, de algum modo, perdeu também. Uma cultura branca começou a dominar esse protagonismo dentro da axé music. Quando você tira isso e coloca só a célula rítmica ali, feita por bateria, com guitarras e pessoas brancas tocando – pessoas dentro de um padrão mais aceito, mais palatável, para o consumo da sociedade –, você perde muito o aspecto cultural. Embora o axé tenha alcançado coisas muito além das fronteiras do nosso país, tenha lançado artistas para o universo pop como nunca antes visto, ele se desgastou por não preservar a matriz da sua criação.

foto_Pedrita
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