por_Luciano Matos • de_Salvador
Surgida na Bahia e totalmente vinculada ao Carnaval de Salvador, a axé music foi uma grande explosão desde o comecinho, em 1985. Seu marco zero, o álbum “Magia”, de Luiz Caldas , já sinalizava o que seria aquele fenômeno. O artista sintetizou o ijexá, o frevo eletrificado do carnaval, com merengue, salsa, reggae e pop e apontou para o futuro. Um álbum seminal, que resumia o ambiente da música baiana no período, a promover de forma natural uma mistura de ritmos e encontro de referências.
‘Magia’ caiu no gosto popular, vendeu mais de 100 mil cópias só na Bahia e apresentou alguns hits que se tornaram marcantes na música baiana e brasileira. O maior destaque e puxador do trabalho foi a música "Fricote", conhecida como “Nega do Cabelo Duro”, que impulsionou todo o sucesso de Luiz Caldas a partir dali.
Na época, o Movimento Negro Unificado tentou impedir que a música fosse veiculada nas rádios, pois entendia que a letra depreciava a imagem das pessoas pretas. Não deu certo, e a polêmica fez com que a música ganhasse ainda mais visibilidade. Hoje, Caldas diz já não cantá-la.
O álbum acabou lançado nacionalmente pela Polygram e foi um sucesso. Luiz Caldas passou a ser figura frequente em seus programas de TV, sempre com um visual típico, pés descalços, camisas abertas, unhas pintadas, grandes brincos e seu remelexo característico.
Era só uma sequência de inúmeros sucessos com presença garantida nas rádios e TVs do país nos anos seguintes: “Ajayô”, “Eu Vou Já”, “Haja Amor”, “Odé e Adão”, “Mademoiselle (O La Ou Té Yé)”, “Tieta” e muitos outros.
Aquela primeira bomba daria lugar a todo um movimento que reverberou anos a fio, com um auge nos anos 1990, trazendo um legado amplo: centenas de hits, uma infinidade de artistas que ajudaram a mostrar ao mundo a força da percussão baiana, e dois gêneros derivados, o samba-reggae e o pagode baiano. Não menos importante: a axé music deixou gravada para sempre uma enorme influência na música brasileira.
Dessa produção surgiram vários artistas que se tornaram astros e estrelas nacionais e até internacionais. Além do próprio Luiz Caldas, Carlinhos Brown, Ivete Sangalo, Daniela Mercury, Margareth Menezes e grupos como Olodum e Chiclete com Banana vieram no rastro daquela explosão.
A axé music acabou moldando o Carnaval pelo Brasil afora, tanto pela grande quantidade de sucessos que emplacou, e ainda obrigatórios em qualquer festa, quanto por elementos como a sonoridade percussiva, as danças, o trio elétrico e a alegria como elemento aglutinador.

A cantora e compositora Margareth Menezes durante a gravação de "Faraó", em 1987
A TEORIA DO BIG BANG
Todo esse movimento não aconteceu repentinamente. O próprio Luiz Caldas lembra como a Bahia já tinha um cenário variado na década de 1980, antes de ele gravar seu disco. “Não tinha muito espaço para expandir nosso trabalho, mas a música da Bahia fervilhava. Era um cenário muito rico, com muitos artistas, só que na música carnavalesca ainda predominava o frevo”, conta.
Um cenário que reunia nomes como Chico Evangelista e Jorge Alfredo, com o “Bahia Jamaica”; o Chiclete com Banana, já com quatro álbuns lançados; a banda Novos Bárbaros, com Sarajane entre os integrantes; Laurinha, com a Pimenta de Cheiro; Lui Muritiba, Raymundo Sodré, Gerônimo e o próprio Luiz Caldas criando uma sonoridade dentro do Trio Tapajós e da banda Acordes Verdes.
“O que deu origem à axé music foi a minha movimentação de fazer algo diferente para que eu pudesse aparecer, porque eu sou guitarrista também, mas já tinha naquela época Armandinho e Pepeu Gomes, grandes representantes da nossa guitarra fazendo um grande sucesso”, conta. “Eu precisava de uma identidade, e essa identidade foi forjada justamente nessa minha inquietação. Ou seja, o que veio a se chamar axé music basicamente nasceu do que eu trouxe do baile.”
A cantora e compositora Margareth Menezes, atualmente ministra da Cultura, corrobora o que ele diz: todo aquele movimento foi fruto de algo que já vinha de antes.
“Já existia a influência de toda uma história do movimento tropicalista, dos Novos Baianos, A Cor do Som”, diz. “A nossa geração bebeu dessa fonte. Artistas que pegaram as levadas, como, por exemplo, Moraes Moreira, que botou o ijexá no violão em cima do trio elétrico", ela descreve. “Essa influência se somou a um comportamento mais pop, mais contemporâneo, e também à diversidade das fontes, como os blocos afro, as levadas dos toques das culturas que vieram dos terreiros de candomblé, através dos músicos, dos percussionistas, a influência dos arranjos de sonoridade da cultura pop.”
Ijexá, ritmos afro-baianos, samba fundidos com reggae, rock, pop, merengue e outros ritmos caribenhos, samba-reggae do Olodum, lambada paraense: desde o surgimento, a axé music se mostrou como uma música híbrida. Em geral, trazia algumas características em comum. Além da fusão de estilos, apresentava letras simples, de fácil assimilação, com sonoridade dançante, que destaca a percussão como elemento motriz. Uma música criada, inicialmente, nos bairros periféricos, nas quadras dos blocos afro, feita em geral por artistas negros e de classe média baixa.
Assim como a Tropicália e o Mangue Beat, a axé music não é simplesmente um gênero, mas um reflexo do espírito de um tempo.
Gravado nos estúdios WR, onde Luiz Caldas trabalhava, “Magia” foi o primeiro trabalho que condensava aquelas sonoridades num mesmo trabalho. Foi também o primeiro que catapultou um artista para o sucesso nacional, não apenas com um hit, mas com toda uma obra bem estruturada por trás. Acima de tudo, foi a partir dali que o mercado e o público de fora da Bahia passaram a olhar o que vinha sendo produzido no estado com mais atenção.
Naqueles meados dos anos 1980, a sonoridade suingada foi apelidada como “deboche” ou “fricote”. A denominação axé music só veio dois anos depois, em 1987, criada de forma pejorativa pelo jornalista Hagamenon Brito. Assim mesmo, o álbum foi um divisor de águas e representou a fundação daquela nova música.
“O termo "axé music" surgiu em 1987, em minhas críticas musicais e textos no jornal A Tarde. Na minha geração roqueira baiana, muito influenciada pelo punk e pós-punk, desde os primeiros anos da década de 1980, algumas pessoas usavam o termo axé como sinônimo de coisa brega, de gosto estético duvidoso, e sem qualquer relação com a nobreza que o termo tem na cultura iorubá e na religiosidade afro-brasileira”, lembra Brito.
Ele reforça que o termo, então, era algo pejorativo e de rebeldia rock'n'roll. “Com o sucesso de Luiz Caldas, com suas roupas coloridíssimas de hippie tropical, brincos imensos nas orelhas, pés descalços e dança exótica, e a ambição dos artistas daquela geração em fazer sucesso até no exterior, eu juntei a palavra axé ao sufixo inglês music como forma de ironizar as pretensões daquela cena. Inicialmente, eles detestaram o rótulo, mas ele pegou no showbiz e em toda a imprensa do Rio e de São Paulo, também, e acabou virando uma expressão que deu identidade a uma nova geração de músicos baianos e brasileiros.”

SEJAM TODOS BEM-VINDOS
Ainda nos anos 1980, vieram Sarajane, Olodum, Banda Mel e Reflexu’s, Margareth Menezes, Chiclete com Banana e muitos outros. Nem todos alcançaram a mesma popularidade fora da Bahia, mas na Bahia criaram vários hits e contribuíram para a cena musical fervilhar, junto com danças, modas e toda uma indústria por trás.

Luiz Caldas, em meados dos anos 1980, durante a gravação de um "Cassino do Chacrinha"
Sarajane também seguia a proposta de mescla de ritmos e elementos, sua música tinha merengue, pop, ritmos afro-baianos, forró e ijexá. A cantora vinha de uma sequência de sucessos e explodiu em todo país com “A Roda”, ajudada pelas aparições frequentes no programa Cassino do Chacrinha. A música impulsionou o álbum “História do Brasil”, que vendeu 800 mil cópias e a transformou num fenômeno midiático.
Com uma sonoridade mais crua, com a forte percussão dando o tom, o Olodum trazia um discurso mais focado no posicionamento político contra a discriminação e o racismo, além da valorização da cultura negra. O bloco/banda emplacou sucessos com um novo ritmo, o samba-reggae, incorporado pela axé music. A música do grupo alcançou as paradas nacionais e chamou atenção de nomes como Paul Simon e Michael Jackson, que gravaram com o grupo.
Algumas músicas do Olodum iriam ficar ainda mais famosas com outros intérpretes. Entre elas, estavam as bandas Mel e Reflexu’s, que gravaram as composições que saíam dos festivais realizados pelo blocos e fizeram enorme sucesso nacional. Em seus primeiros discos, elas traziam músicas como “Faraó (Divindade do Egito)”, “Ladeira do Pelô”, “Protesto Olodum (E Lá Vou Eu)”, “Madagascar Olodum”, todas com origem no bloco do Pelourinho.

Carlinhos Brown desce do trio e canta na avenida, em foto sem data
A banda Mel emplacou ainda outros hits, como, “Baianidade Nagô”, “Crença e Fé” e “Conversa Fiada” e bateu 3 milhões de cópias vendidas de seus discos. A Reflexu’s teve seu disco de estreia na 14ª posição entre os mais vendidos no Brasil em 1988. Foi o primeiro artista da axé music a ultrapassar a marca de 1 milhão de cópias vendidas.
As bandas Beijo e Asa de Águia foram outras que surgiram naquele período, também obtendo bastante sucesso. Margareth Menezes, que despontou cantando “Faraó”, originalmente do Olodum, conquistou espaço com um afro-pop moderno e sintonizado com a world music. Não à toa chamou atenção de gravadoras de fora do país e engatou uma carreira lá fora.

Carlinhos cercado por Pepeu Gomes e Caetano Veloso em foto dos anos 1990
Além do crescimento da axé music, a passagem dos anos 1980 para os 1990 foi marcada também pela explosão da lambada em todo país, com nomes como Beto Barbosa e Kaoma. Como não poderia deixar de ser, a axé music soube assimilar muito bem aquela sonoridade e incorporou o ritmo e o suingue ao seu repertório e musicalidade.
OS ANOS 90: ERA DOURADA
O sucesso de Luiz Caldas, Sarajane, Mel e Reflexu’s estimulou ainda mais a produção em Salvador, com o surgimento de muitos novos artistas. Assim mesmo, aquela música ainda era vista com certo desdém, como algo meio exótico e regional demais.
Nos anos 1990 aconteceu a virada definitiva para a axé music, que se consolidou de vez. A indústria fonográfica chegou com mais força, o ambiente se tornou mais profissional, muito mais dinheiro passou a circular e, como consequência, também houve mudanças na musicalidade, nas temáticas das letras e no perfil dos próprios artistas.
O grande marco foi o álbum ‘O Canto da Cidade’, lançado em 1992, como aposta grandiosa da Sony Music, que escalou o fazedor de sucessos Liminha para a produção. O investimento foi enorme, e o resultado, ainda maior. O álbum foi o mais vendido no país em 1993, alcançando mais de três milhões de cópias, algo até então inédito para a axé music.
Daniela elevou o patamar, inovou, com shows superproduzidos que, com centenas de apresentações, bateram recordes de público, atingindo mais de dois milhões de espectadores. Ela ganhou ainda programas especiais na Globo, virou garota propaganda para cervejaria e assinou contratos publicitários com valores vultosos. Um fenômeno.
Não foram apenas números, vendas e marketing. “O Canto da Cidade” foi uma novidade no mercado, um frescor nas programações das rádios e definidor para o futuro da música baiana. Se “Magia”, de Caldas, foi considerado como pedra fundamental que inaugura a axé music, o segundo álbum de Daniela foi um propulsor do samba-reggae e um marco para a axé music como um movimento de dimensão nacional.
Aquilo foi uma transformação potente também para o carnaval de Salvador, que passou a ser disputado e divulgado pela mídia como nunca antes em sua história. O modelo da festa foi exportado a diversas cidades pelo Brasil, com os carnavais fora de época, micaretas, se disseminando por todo o país à base de trios elétricos e venda dos abadás.

Ivete cercada pela multidão em Salvador, em imagem sem data
Não só: a axé music conquistou e ocupou espaço em diversos eventos, como Brazilian Day (EUA), Festival de Montreux (Suíça) e Rock in Rio. O carnaval baiano também sofreu forte impacto e dobrou de tamanho nos anos 90: de um para dois milhões de foliões por dia participando da festa.
Enquanto isso, Daniela seguia emplacando sucessos e vendendo muitos discos nos trabalhos seguintes, e as gravadoras correram atrás de novos artistas, em busca de mais… Danielas. Ao mesmo tempo, a aposta em nomes já estabelecidos do cenário do carnaval de Salvador cresceu, como os de Cheiro de Amor a Chiclete com Banana.
Se a Sony apostou em Daniela, entre as demais gravadoras, a Polygram foi quem mais investiu. Primeiro com a Timbalada, tendo à frente Carlinhos Brown. Já no primeiro disco, um sucesso arrebatou o público, “Beija-Flor”. Depois vieram Cheiro de Amor, Netinho, Terra Samba, Banda Eva (com Ivete Sangalo), Bom Balanço, É o Tchan e As Meninas.

O trio Magarojipe em imagem de 1980
Diretor artístico da empresa na época, Max Pierre foi um dos principais responsáveis por levar aqueles nomes para a empresa. E deu certo. “Em 1993, 30% do faturamento da Polygram eram da música baiana”, conta. “Era todo ano lançando discos, todos com muito sucesso, foi um fenômeno.”
A cascata de artistas baianos brilhando nacionalmente não parava de jorrar: Timbalada e Carlinhos Brown, Banda Eva e Saulo Fernandes, Jammil. A aposta nas novidades vindas da Bahia culminou também com expressivas vendagens de nomes como Terra Samba, Ara Ketu e É o Tchan, além de impulsionar a transformação das cantoras Ivete Sangalo e Claudia Leitte em novos ícones da música nacional. Definitivamente, todo o mercado — quase literalmente — passou a considerar esse gênero a galinha dos ovos de ouro.
Fora do eixo Rio-São Paulo já haviam surgido vários movimentos, ritmos e modas, mas todos sob a bênção de empresários e gravadoras das duas maiores cidades do país. Com a axé music, um mercado próprio se consolidou na Bahia, com produtoras, estúdios, empresários, rádios, muitos artistas, e até gravadora com foco naquela musicalidade.
O mercado passou, definitivamente, a ditar os rumos da música baiana, e se iniciou um processo de mudança, com a origem negra sendo paulatinamente deixada de lado. No auge da produção de CDs e com as gravadoras ganhando muito dinheiro, as preocupações estéticas deram lugar ao marketing e ao retorno econômico imediato. O perfil dos artistas mudou, com menor presença negra e origem mais frequente na classe média.
Enquanto a axé music vendia milhões de discos e abadás em blocos, e gerava cifras milionárias entre os envolvidos, os artistas negros, os compositores e os blocos afro ficaram à margem desse sucesso, sem a mesma projeção dos artistas da axé music.
Um dos maiores fenômenos a seguir foi Ivete Sangalo, que despontou na Banda Eva, com sucessos e muitos discos vendidos. O maior sucesso comercial foi o álbum “Banda Eva Ao Vivo”, de 1997, que vendeu 2,5 milhões de cópias, o quinto mais vendido de 1998. Ivete decidiu seguir carreira solo e acumulou novos sucessos. Em 2004, o primeiro álbum ao vivo da carreira solo, lançado em CD e DVD, alcançou o topo das paradas do Brasil e vendeu mais de 2 milhões de cópias. Um segundo CD e DVD ao vivo, em 2007, repetiu a dose e os números.
DE REPENTE, UM OUTRO GÊNERO
E eis que, de repente, em meio ao turbilhão do axé, outra sonoridade ganhou corpo — além das mentes e dos quadris de baianos e brasileiros. A explosão do pagode baiano não era a pá de cal no universo do axé, mas mostrava que havia um desgaste no formato.
O pagode, no entanto, retomava o início da axé music. Tinha uma conexão direta com as camadas mais populares da população, com letras, temáticas e sonoridade que faziam parte da realidade de bairros menos nobres de Salvador. Os próprios artistas do segmento vinham destes lugares. Os shows, assim como as apresentações no carnaval, eram mais baratos e em lugares modestos.
O primeiro nome desse momento que explodiu de forma mais ampla foi o grupo Gera Samba, que depois adotou o nome É o Tchan e se tornou um fenômeno, com cerca de dez milhões de discos vendidos e uma mudança definitiva na música da Bahia. Os álbuns eram um acontecimento, gerando diversos hits e batendo recordes de vendas. Um fenômeno nacional.
Vieram então outros grupos: Companhia do Pagode, com “Na Boquinha da Garrafa”; Terra Samba, emplacando diversos sucessos e vendendo mais de 2 milhões de cópias de seu álbum ao vivo; Patrulha do Samba, Gang do Samba e Harmonia do Samba.
Incorporados à indústria do axé, esses artistas eram apenas uma demonstração de uma vasta produção que acontecia espontaneamente nas periferias. Nos anos 2000 o pagode assumiu definitivamente o protagonismo e encaminhou a consolidação de uma nova cultura na capital baiana, com nomes como Psirico, Parangolé, Pagodart, Léo Santana e muitos outros.
Atualmente, o pagode é o que norteia a produção musical baiana, com muitos dos artistas consagrados da axé music apostando no ritmo para se manter conectados com o público. Ivete Sangalo, Daniela Mercury, Saulo, são alguns que, de alguma forma, apostaram no pagode.
Essa movimentação, em todo caso, é uma boa demonstração de como a axé music ainda se adapta, se mexe e incorpora as referências da música dançante, diversa, alegre e festiva que é produzida na Bahia.
CRISE OU MATURIDADE?
Após os tempos opulentos entre 1990 e 2010, a axé music foi perdendo força e espaço. Se vendeu muitos álbuns naquele período, chegando a ter 4 ou 5 entre os 50 mais vendidos em alguns anos, os números foram caindo. De 2005 em diante, apenas Ivete Sangalo aparecia com frequência nas listas de mais vendidos, assim mesmo normalmente com registros ao vivo ou coletâneas. Claudia Leitte e Asa de Águia também apareciam, mas eventualmente. Nenhum deles, no entanto, com um trabalho de músicas inéditas. E muito menos surgiam novos artistas de expressão nacional.

Apresentação do Olodum nos anos 1990, no Pelourinho
Entre as músicas que mais arrecadaram direitos autorais nos períodos de carnaval, os números também indicavam uma queda. Em 2011, por exemplo, 28 das 50 músicas na lista de mais tocadas eram de axé, contra apenas três músicas de outros gêneros contemporâneos. Em 2018, foram 6 músicas de axé, contra 9 só de funk, por exemplo.
Soa a crise. Mas, para muitos artistas e profissionais do gênero, é só uma acomodação normal do mercado. Compositor e empresário, Manno Góes acredita que o axé chegou em outra fase de sua trajetória. “Passou da fase da adolescencia e, hoje, é um adulto que ainda tem muita alegria, muito pra oferecer e que tem que olhar um pouco pra trás pra puxar elementos novos, ter sabedoria pra se renovar”, diz.

Durval Lelys toca no trio do Ásia de Águia já nos anos 2000
Para a cantora e atual ministra Margareth Menezes, essa dita crise é controversa. “Os vários artistas da música baiana continuam aí fazendo shows, trabalhando pelo Brasil inteiro. Então, acho que a coisa está muito mais pra solidificada do que pra ‘acabou’. Não acabou e não acabará”, diz. “Novas gerações vêm chegando, outras tendências, outras linguagens, derivados também de coisas do axé.”
Artista de uma geração mais recente, e que não fez parte do movimento, Marcia Castro tem uma posição mais crítica ou distanciada. Ela, que lançou um álbum chamado ‘Axé em 2022 e vem promovendo um resgate do samba-reggae em um novo projeto (leia mais no JOGO RÁPIDO, na página 3) , acredita que a ausência de continuidade e de novos nomes coloca em xeque essa existência da axé music.
“A gente percebe que a ganância de muitos empresários e a falta de visão empresarial dos artistas, nesse sentido de continuidade, fizeram com que se esgotasse muito o gênero musical, e acabou que a gente não criou fonte de renovação”, critica.
CAMINHOS E FUTURO
Olhando para o futuro, o diagnóstico de quem produz, compõe, canta e faz parte do cenário é de que a axé music precisa mudar a rota e perceber as novidades ao seu redor para continuar relevante.

Claudia Leitte, outra estrela do carnaval baiano, que surgiu na banda Babado Novo, no início dos anos 2000
Compositor antenado com essas novidades, Tenison Del Rey diz ainda acreditar muito na força da música baiana. “Porque é uma música que nasce da naturalidade do povo soteropolitano. Sobretudo da rua, desse povo, dessa massa das pessoas pretas que é a coisa mais interessante que tem aqui”, diz. Segundo ele, não é questão de viver ou morrer, “é questão de existir, de ser, de estar.”
O resultado disso depende da produção, da geração de conteúdo de cada um. “Carlinhos Brown está fazendo coisas, Chiclete continua a fazer coisas, Daniela continua a produzir, Ivete, Claudinha, todo mundo, incluindo os novos artistas”, enumera Tenison, que ataca parte do empresariado, chamado por ele de obtuso: “Não enxerga novidades e não busca o novo que está latente. Uma Afrocidade é incrível, mas quase nem se fala. Esse movimento das mulheres, Xênia (França), Rachel Reis, tudo o que aconteceu. Tudo isso aí passou sem (ser notado por muitos) players.”
Manno Góes corrobora: “O axé não acompanhou as gerações que vinham surgindo, novos artistas não surgiram, as pessoas perderam o interesse em tocar, em investir, em fazer eventos. Mudou muito a dinâmica da música e da comunicação, mas o axé não se organizou com a rapidez necessária, ficou no analógico. Agora é que está caminhando.”
Alexandre Peixe acredita que uma mudança de cenário não será rápida, mas defende que a produção musical baiana tem muita capacidade, sem precisar se prender a gênero ou a rótulo:
“Tudo que a gente fala da produção da música na Bahia, seja um BaianaSystem ou uma Rachel Reis, tudo o que se produz de música dentro da Bahia… se todo mundo estivesse nessa tarefa que é produzir conteúdo, independentemente de fazer samba, pagode, ou o que queiram rotular, acho que essa produção da gente seria imbatível. Porque é muito rica e vai continuar sendo.”
E completa: “A saída sempre vai ser música, não tem jeito. Você pode ter um bloco gigantesco, pode tocar no melhor camarote do mundo. Se a música for pobre, ela não sustenta nada.” •
