por_Eduardo Fradkin • do_Rio
"Sabe aquela música que faz com que você acorde querendo ouvi-la? A do Marlos Nobre é assim. De quantos compositores contemporâneos se pode dizer isso? Ninguém fala: 'poxa, hoje acordei com uma vontade de ouvir Pierre Boulez!' Você acorda com desejo de ouvir Mozart, Chopin, Debussy... e Marlos", provoca o violonista Fabio Zanon, sintetizando o valor artístico e o legado do compositor pernambucano que teria feito 86 anos em 18 de fevereiro, dois meses e meio depois de sua morte.

Marlos Nobre: técnica e emoção
A opinião parece afinada com a da escritora Clarice Lispector que, em "A Hora da Estrela", também o colocara em boa companhia: “Sobretudo, dedico-me às vésperas de hoje e a hoje, ao transparente véu de Debussy, a Marlos Nobre, a Prokofiev, a Carl Orff, a Schönberg (...) a todos esses que em mim atingiram zonas assustadoramente inesperadas.”
Esse legado musical é cultivado por intérpretes como o próprio Zanon, cujo próximo disco — a ser lançado, este ano, pelo selo Naxos —, em dueto com a soprano ítalo-brasileira Camila Provenzale, trará duas canções de Nobre. "A música dele é eminentemente audível, mesmo quando está no seu momento mais experimental. É uma música que tem narrativa", define o violonista, colocando-se no lugar de ouvinte. Já na posição de executante, o diagnóstico é diferente:
"A música dele é brutalmente difícil. É muito detalhada, é, às vezes, um pouco sobrecarregada de informação, e com tudo meticulosamente anotado. Ele sabia exatamente quais eram as indicações necessárias na partitura para que o músico conseguisse o swing que ele havia imaginado. Ele conduzia o intérprete para chegar àquele sotaque da música, muitas vezes baseada em ritmos folclóricos. Então, a obra dele enfrenta uma certa resistência pela dificuldade. Ele tem, por exemplo, uma sonata enorme para violão que é muito pouco tocada pelos desafios que impõe.”
A pianista Clélia Iruzun — que estreou com Zanon um arranjo do "Desafio nº 37", de Nobre, dedicada aos dois pelo próprio compositor — identifica um elemento que explicaria a conexão com os ouvintes:

"Ao contrário de algumas músicas modernas, que são herméticas, a dele tem emoção. Por mais que seja moderna, e por mais que esbanje técnica, ela é guiada pela emoção. É isso o que me fascina.”
Tal sentimento, algumas vezes, extrapolou as notas musicais, como no caso de "Movimentos Sinfônicos", fruto de uma encomenda do regente Isaac Karabtchevsky para a temporada de 2011 da Petrobras Sinfônica. Intitulada "Em Memória de Um Anjo", a obra faz referência a Ilana, filha do maestro morta por um tumor aos 11 anos, em 1981. "Os Movimentos Sinfônicos compostos por Marlos Nobre atravessam minha própria biografia e refletem o processo criativo de um artista para quem a emoção tem exercido cada vez maior protagonismo", observou o regente, em uma publicação da orquestra.
UM ESTILO SÓ DELE
É consenso entre músicos, ouvintes e estudiosos de Nobre que ele teve o mérito de forjar um estilo próprio. "A música dele é muito forte, tem uma marca pessoal. Ele conseguiu misturar diferentes conceitos e estéticas e imprimir a sua personalidade sobre eles", afirma Iruzun.
Outra admiradora dele, a pianista Clara Sverner, que incluiu a sua "Toccatina, Ponteio e Final" num disco de 1971, da gravadora RCA, acrescenta que "Marlos era um espírito livre. Da mesma forma que fazia um frevo, também criava música contemporânea de vanguarda. Ele não se sentia preso a uma corrente, como o nacionalismo. Nem tudo que ele fazia tinha, obviamente, um apelo popular, mas uma coisa que ninguém discutia era a sua genialidade.”
Diante de uma bifurcação pavimentada por dois campos antagônicos da música clássica, Nobre decidiu, desde cedo, desbravar o seu próprio caminho. Fez isso depois de conhecer bem os dois lados que se digladiavam no debate teórico-musical, já que teve aulas com nomes eminentes de cada um. Foi aluno do compositor germano-brasileiro Hans-Joachim Koellreutter, ligado ao serialismo, ao dodecafonismo, ao eletrônico e a tudo o mais que se entendia por vanguarda em meados do século passado, e também estudou com Camargo Guarnieri, adepto do nacionalismo e famoso crítico do dodecafonismo (difundido no Brasil justamente por Koellreutter).
Um parêntese: em entrevista feita com ele por mim em 2005, e publicada no jornal O Globo, Nobre comentou sua posição no cenário conflagrado de sua juventude.
"Eu acredito na pluralidade. Nos anos 1950, Pierre Boulez dizia que quem não fazia música serial era uma besta, assim como Mário de Andrade disse que quem não era nacionalista era uma besta. Pois eu acho que atitudes exclusivistas como essas é que são uma burrice. Acredito que a música clássica deve se aliar a manifestações contemporâneas, como o rock, o rap e o hip hop. Compor, para mim, é moldar uma grande massa musical, que é múltipla.”
"Ele explorou possibilidades únicas do instrumento, combinando percussividade e lirismo de maneira singular. Posso testemunhar não apenas a riqueza de sua escrita, mas também a importância que ele teve na projeção do violão no cenário da música de concerto.”
Sergio AssadNa época, ele havia acabado de vencer o prêmio Tomás Luis de Victoria, o mais expressivo outorgado a compositores ibero-americanos. Um ano antes, sua peça orquestral "Kabbalah" havia sido estreada no Festival Internacional de Campos do Jordão, trazendo compassos de hip hop.
SUCESSO LÁ FORA
Se fosse uma mera excentricidade, certamente "Kabbalah" não teria cruzado as fronteiras que cruzou. Foi uma das obras que entraram no programa da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo (Osesp) numa turnê pela Europa, em 2016, incluindo um concerto num festival inglês considerado uma espécie de Woodstock da música clássica, o BBC Proms. Liderada por Marin Alsop, a Osesp apresentou a peça de Nobre para mais de 5 mil espectadores no Royal Albert Hall, em Londres.
A pianista Clélia Iruzun estava na plateia:
"Eu vi a Osesp tocar ‘Kabbalah', e foi um concerto incrível. Essa obra e outras dele deveriam estar mais presentes nas salas de concerto do mundo e no repertório de mais orquestras", opina ela, que fará sua parte tocando o "Desafio nº 37" com o violinista Alessandro Borgomanero, em março, no Blackheath Halls, em Londres.
Antes do BBC Proms, a mesma Osesp já tinha botado, em 2002, outra partitura do autor recifense na sua bagagem, em um giro pelos Estados Unidos. A aventura está viva na memória do violonista Sergio Assad, que acompanhou a orquestra junto com seu irmão Odair.
"Entre as obras apresentadas, estava o 'Concerto para Dois Violões e Orquestra', de Marlos Nobre. Essa peça foi interpretada em diversas cidades, culminando em uma apresentação no Lincoln Center, em Nova York. Marlos sempre dialogou com os movimentos estéticos de seu tempo, absorvendo influências do nacionalismo musical sem cair no óbvio, e transitando por técnicas como a politonalidade, o serialismo e a música aleatória, sem perder sua identidade. Sua música tinha um equilíbrio raro entre modernidade e tradição, e sua escrita para violão, ainda que menos presente no repertório atual, merece ser redescoberta e valorizada pelas novas gerações de intérpretes", advoga Assad.
Pela EMI, o Duo Assad gravou os "Ciclos Nordestinos" e a coleção "Momentos para Violão", um repertório que a dupla promoveu ativamente nos anos 1980. Embora o instrumento primordial de Nobre fosse o piano, Sergio Assad elogia sua escrita para o violão:
"Ele explorou possibilidades únicas do instrumento, combinando percussividade e lirismo de maneira singular. Como intérprete de sua obra , posso testemunhar não apenas a riqueza de sua escrita, mas também a importância que ele teve na projeção do violão no cenário da música de concerto. Em 1979, foi ele quem nos escolheu para representar o Brasil na Tribuna de Jovens Intérpretes em Bratislava, na antiga Tchecoslováquia. Essa escolha foi inusitada e, para muitos, inesperada. Afinal, um pianista teria sido a opção natural. No entanto, fomos à competição e saímos como um dos três vencedores, ao lado de uma violoncelista e de um saxofonista. Esse reconhecimento foi um divisor de águas, um verdadeiro empurrão inicial para nossa trajetória internacional."


Por sua vez, a trajetória internacional de Nobre teve o impulso de outro célebre professor, o compositor argentino Alberto Ginastera, com quem teve aulas no Instituto Torcuato di Tella, em Buenos Aires, nos anos 1960. O regente e pianista João Carlos Martins faz uma comparação entre os dois: "Marlos conseguiu a mesma coisa que Ginastera fez na Argentina; ele conseguiu manter uma veia modernista sem esquecer as suas origens. Então, eu considero Marlos Nobre um dos maiores ícones da música clássica brasileira.”
O autoproclamado "pluralismo" de Nobre também é reconhecido por Martins: "Uma das grandes qualidades do Marlos é que ele achava que todo gênero pode ter coisas boas; o que vale, na música, é o bom gosto. Ele faz parte de uma geração que deu frutos no Brasil e vai continuar dando frutos. Quando Villa-Lobos foi, ainda jovem, a Paris, ele declarou que não estava indo lá para aprender, e sim para ensinar. Era um sujeito fora da curva. Eu acho que Marlos herdou algo dele.”
NO INÍCIO DO CAMINHO...UM PRÊMIO
Assim como Villa-Lobos, Nobre tinha motivos para confiar no seu talento: sua carreira de compositor se iniciara em 1959, já com um prêmio. Seu "Concertino Para Piano e Orquestra de Cordas, op.1" ganhou menção honrosa no 1º Concurso de Música e Músicos do Brasil, promovido pela Rádio MEC (da qual, aliás, ele viria a ser diretor artístico nos anos 1970). Na ocasião, o jornal O Globo o saudou como sucessor do maior nome de seu métier no país: "Nobre surge como uma estrela a quem parece ter Villa-Lobos entregue o cetro da criação musical do Brasil.”
O holofote jogado pela imprensa era bem-vindo, porque, segundo o violonista Fabio Zanon, "a geração de Marlos enfrentou a sombra de Villa-Lobos, que tinha sido um compositor com um prestígio internacional muito grande e criador de uma modalidade de Brasil. Antes do Villa-Lobos, não se tinha um som brasileiro de música clássica. A geração seguinte teve que aprender a colher esse som e tentar fazer alguma coisa a partir dali, e eu acho que, de todos, o Marlos foi, sem dúvida, o melhor agricultor. Ele mesmo comentava que começou a ser reconhecido como compositor exatamente quando Villa-Lobos morreu (em 1959), então, foi quase como uma passagem de bastão. Ele tinha muito orgulho disso.”
Para Zanon, o compositor recifense "criou uma música com cara própria, com uma cara brasileira e, vale dizer, uma cara brasileira diferente das de Villa-Lobos e Camargo Guarnieri. Marlos era pernambucano, e a gente escuta, na música dele, o Nordeste, o maracatu, o boi-bumbá, o caboclinho (ritmo folclórico pernambucano). Isso não é incorporado de uma forma pitoresca. Não é música para se ouvir em audição de conservatório. É uma música robusta, vital.”
O violonista, inclusive, provoca: crê que a música de Nobre passará a ser mais tocada agora que ele morreu.
“Há intérpretes que o admiravam, mas deixaram sua música de lado por terem se desentendido com o compositor, por questões pessoais ou ideológicas. Eu acho que a nova geração, a que vem agora, vai se debruçar sobre a música dele e vai ficar de boca aberta, pela alta qualidade e porque tem linguagem própria, né? Música boa tem aos montes por aí. Mas, com uma originalidade como a do Marlos, não é fácil de achar. Acho que o terreno está semeado para o Marlos ter uma reputação póstuma maior do que a que teve em vida.”
Quem sabe amanhã não é um bom dia para acordar com vontade de ouvir Marlos Nobre? •
