Em entrevista à UBC, o fundador do grupo Filarmônica de Pasárgada explica como vem criando os EPs do seu projeto solo “Cinemúsicas”, composto por canções inspiradas em nomes de filmes
por_Leonardo Lichote • do_Rio
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Criador do grupo de “neo-Vanguarda Paulistana” Filarmônica de Pasárgada, compositor gravado por Tom Zé (de quem é parceiro) e Eduardo Dussek, Marcelo Segreto vem se dedicando ao cinema nos últimos anos. Não em detrimento da música, pelo contrário. Na verdade, desde 2021 ele tem lançado EPs e singles do projeto “Cinemúsicas”, de canções inspiradas em filmes.
A descrição sintética do projeto não dá conta das muitas camadas que carrega esse conjunto de canções que vai de “Deus e o Diabo na Terra do Sol” a “Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças”, de “Dançando no Escuro” a “Me Chame Pelo Seu Nome”. Estão ali um olhar algo melancólico sobre as relações humanas; a memória como matéria-prima; a simplicidade como veículo de alguma essência possível daqueles filmes. Nesta entrevista com a Revista UBC, Segreto apresenta o making of desse processo composicional.
Como nasceu o projeto “Cinemúsicas”?
Sempre gostei muito de cinema. Quando estava na faculdade de Música na USP, assistia a disciplinas optativas na faculdade de Cinema, que ficava ali do lado. Fui me interessando cada vez mais e, desde aquela época, pensava em fazer algo que unisse canção e cinema. Aos poucos, essa ideia foi tomando forma. Um dia, conversei com o (produtor) Marcus Preto, que gostou da proposta. Inicialmente, pensamos em um disco, mas achamos mais interessante dividir em EPs, criando diferentes volumes. Também tem um fator familiar nessa relação com o cinema. Meu tataravô (Affonso Segreto) foi o primeiro cineasta a realizar um filme no Brasil, em 1898. Ele filmou “Vista da Baía de Guanabara” (cujo registro se perdeu), e uma das canções que fiz é pra esse filme.
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E como você vê essa conversa entre canção e cinema? Como esses dois universos dialogam?
O que me interessa é pensar em diferentes maneiras de abordar o universo do filme e tentar transpor isso para a canção. Por exemplo, lancei um single chamado “Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças”. Nele, as palavras vão desaparecendo da letra a cada repetição, como se a memória estivesse sendo apagada. Mas ao mesmo tempo novas palavras vão surgindo desses cacos das palavras originais. Foi uma forma de traduzir a ideia do filme para a canção.
Qual foi a primeira canção que você fez dentro desse conceito de compor sobre um filme?
Foi “Lost in Translation”, que surgiu antes de eu pensar nesse projeto. Na época, estava compondo umas canções diferentes das que costumo fazer com a Filarmônica de Pasárgada. Ali, eu sou mais experimental, mas, conversando com Marcus Preto, me dei conta que também gosto das canções mais simples, em que a emoção vem da relação entre a letra e a melodia, sem precisar de figuras de linguagem complexas. A ideia foi fazer canções mais delicadas, menos experimentais, mas com um impacto emocional forte. Esse conceito também está num disco solo que vou lançar este ano, um projeto que começamos há muito tempo, mas que ficou em segundo plano quando o “Cinemúsicas” foi lançado. O disco vai se chamar "De Canção em Canção", que também é o nome de um filme, "Song to Song", do Terrence Malick. Uma das canções do disco também se chama "Song to Song", mantendo essa relação com o cinema. O disco tem 11 faixas e segue uma brincadeira linguística: as três primeiras são em português, a quarta tem uma estrofe em inglês, a quinta é meio a meio, a sexta é totalmente em inglês, e depois ele retorna gradualmente ao português. A ideia é criar um jogo de distanciamento e aproximação.
Como você escolhe o ponto de partida para cada música a partir dos filmes? Você se baseia em um personagem, em um tema central do filme? Como funciona esse processo composicional?
A ideia não é criar uma correspondência literal entre a canção e o filme. Não quero que a música apenas conte a história do filme, mas que ela seja uma obra autônoma, que possa ser interpretada de diferentes formas. Por exemplo, “Uma Vista da Baía de Guanabara” é uma canção inspirada nesse primeiro filme brasileiro que mencionei, mas também pode ser interpretada como uma canção de amor. Tento criar músicas que tenham um significado próprio, sem que seja necessário conhecer o filme para apreciá-las. Como a ideia é ir por um tom mais lírico e melancólico, escolho filmes que possam inspirar esse tipo de canção. Depois de selecionar o filme, reassisto-o para captar elementos que podem ser trabalhados musicalmente. Em geral, componho a melodia primeiro e, depois, penso na letra. A temática principal acaba girando em torno do amor e das relações humanas. Em “Lost in Translation”, por exemplo, me interesso pela relação amorosa entre os personagens. “Me Chame Pelo Seu Nome” aborda a descoberta do amor.
Você continua compondo para o projeto?
Sim, neste semestre vou lançar “Ela”, inspirada no filme “Her”. Outra no qual o foco está na relação amorosa. "No meu quarto vazio, no meu grande sertão, no fundo do mar, você me esqueceu, não sei se sou seu, não sei se sou seu…” O filme acaba tocando nas formas de relacionamento, monogamia, não-monogamia, expectativas. Existe esse conceito de afeto compartilhado ou individual. Tem essa sugestão no filme.
Seus clipes são sempre muito bem elaborados, mesmo partindo de ideias simples. Parece que você faz um caminho inverso ao cinema: pega um filme, transforma em canção e depois faz um clipe que, de certa forma, recria a essência cinematográfica. Como é esse processo?
Trabalho com diretores como Martina Mattar e Thiago Ricarte, que entendem bem essa proposta. No clipe de "Lost in Translation", a Martina explorou muito o jogo de foco e desfoque, algo muito presente no filme. Não se trata de repetir cenas, mas de trazer elementos sutis. O Thiago, no clipe de "Rosebud", sobre “Cidadão Kane”, usou imagens de arquivo e inteligência artificial para esvaziar espaços, criando um efeito fantasmagórico interessante.
E sobre "Uma Vista da Baía de Guanabara"? Esse clipe traz uma reflexão cinematográfica sobre um filme que não existe mais, já que esse registro filmado por seu antepassado se perdeu. Assim como “Brilho Eterno”, toca na questão da memória. É bonito isso.
Desde criança eu ouvia falar do Affonso Segreto, meu tataravô, que trouxe o cinema para o Brasil. Tínhamos um quadro com a foto dele e seus equipamentos. "Uma Vista da Baía de Guanabara” representa a memória perdida, uma metáfora para relacionamentos e outras perdas. Essa ideia me interessa. O filme perdido é uma metáfora para amores e experiências que desapareceram. É uma canção de amor. Gosto dessa relação entre cinema, memória e emoção. •