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Elis, viva

Nos seus 80 anos de nascimento, cantora gaúcha desafia a cultura do esquecimento e se mantém relevante, inspirando uma série de projetos em sua homenagem

por_Kamille Viola do_Rio

Nos seus 80 anos de nascimento, cantora gaúcha desafia a cultura do esquecimento e se mantém relevante, inspirando uma série de projetos em sua homenagem

por_Kamille Viola do_Rio

Em sua última entrevista, Elis Regina disse que pretendia cantar até o fim de sua vida. “O meu futuro é cantar, pois quando ficar velha, como a Edith Piaf, vão me colocar no palco, e esta é a única coisa que vai me restar”, falou. “Dediquei minha vida a cantar, e não tem homem, nem pai, nem mãe que me tire disso”, prosseguiu ela.

foto_Reprodução/Marcos Lázaro Produções

A cantora em foto de 1972, durante uma apresentação

Os planos daquela que é uma das maiores cantoras do Brasil — para muitos, a maior —, infelizmente foram interrompidos por sua morte precoce, aos 36 anos, em 19 de janeiro de 1982. O país chorou, mas não seria exagero dizer que, de certa forma, o destino que a Pimentinha traçou para si se concretizou. No dia 17 de março, completam-se 80 anos do nascimento dessa intérprete que transformou cada canção a que deu voz em uma criação sua, e sua figura e sua obra permanecem vivas no imaginário brasileiro, desafiando a tão falada falta de memória brasileira.

Filha de Romeu de Oliveira Costa e de Ercy Carvalho, Elis Regina nasceu no Hospital da Beneficência Portuguesa, em Porto Alegre. Desde muito cedo, demostrou aptidão para a música: sua família contava que, aos 3 anos, ela já falava cantando. Aos 7, foi levada pela mãe ao famoso programa de rádio Clube do Guri, mas teve medo e pediu para voltar para casa. Aos 12, finalmente conseguiu voltar e cantar. Agradou tanto que passou a fazer parte do elenco fixo de crianças que se apresentavam na atração, sem cachê. Tinha apenas 13 anos quando iniciou a carreira profissional, na Rádio Gaúcha. Aos 16, gravou o primeiro álbum, “Viva a Brotolândia”. Quando estourou, aos 20, já tinha três discos gravados. Em sua carreira, lançou ao todo 21 álbuns de estúdio e sete ao vivo, além de 33 compactos.

Filho mais velho da cantora, o produtor musical João Marcello Bôscoli comemora que Elis não tenha caído no esquecimento. “Eu fico muito contente de ver, haja vista como o nosso país trata a memória, haja vista a (pouca) lembrança que temos de nomes como Silvia Telles, Angela Maria, Elizeth Cardoso… Aqui, as coisas vão ficando pálidas muito rapidamente, não tem um trabalho de manutenção do legado de figuras da música e de outras áreas”, lamenta ele.

Essa permanência tem uma forcinha (e tanto) dos herdeiros da cantora, tendo João Marcello na dianteira, garantindo que haja novidades em torno de Elis com frequência. Para as comemorações das oito décadas, uma série de lançamentos está prevista, grande parte tendo o primogênito da estrela à frente ou participando de alguma forma.

Ele próprio é o responsável pela remixagem do álbum “Elis", de 1973, com som imersivo Dolby Atmos, e pela produção musical do relançamento do disco póstumo “Luz das Estrelas” (1984), que foi restaurado com recursos de inteligência artificial e já teve a primeira das dez faixas, “Para Lennon e McCartney”, lançada no ano passado.

João Marcello também é o responsável pelo show “Elis 80”, que acontece dia 28 de março no Espaço Unimed, em São Paulo, e conta com as participações de Fagner, João Bosco e Ivan Lins, três compositores que tiveram a carreira impulsionada pela cantora, e assina a curadoria, ao lado do jornalista Julio Maria, de uma mostra no Museu da Imagem e do Som, em São Paulo, que também estreia em março. E era uma vontade dele o documentário “Elis Com a Palavra”, de Allen Guimarães, com direção de Hugo Prata, em que a história é contada a partir de entrevistas e depoimentos da cantora.

SÉRIE, LIVRO, QUADRINHOS

Muitas outras, no entanto, são iniciativas de terceiros, embora tenham o apoio de João Marcello. É o caso da série documental “Elis Por João”, da HBO/Max, com produção de Marcelo Braga e direção de Lea Van Steen, para a qual ele deu um depoimento. E da biografia “Elis: Nada Será Como Antes” (ed. Companhia das Letras), de Julio Maria, que ganhou edição ampliada, nas livrarias desde 14 de março.

foto_Divulgação

Com Tom Jobim, em cena de “Elis & Tom: Só Tinha de Ser Com Você”

Também foi assim com o livro em quadrinhos “Elis: Uma Fantasia Biográfica” (ed. Record), de Gustavo Duarte, que trabalhou para gigantes do gênero como Marvel e DC. E existem outras que passam longe de sua aprovação ou apoio, acontecendo de forma espontânea, como os inúmeros shows em tributo à cantora e a profusão de trechos de entrevistas da artista que volta e meia se espalham pela internet. “Eu acho muito legais esses cortes viralizarem, porque mostram quem ela era: uma pessoa muito interessante, carismática, engraçada, despachada”, elogia o filho da estrela.

A partir de 1965, quando venceu o 1º Festival da Música Popular Brasileira, com “Arrastão”, de Edu Lobo e Vinicius de Moraes , e foi alçada à fama nacional — com uma performance que é considerada um marco na inauguração de um novo estilo, a chamada MPB, já que passava longe do minimalismo da música universitária em voga até então, a bossa nova —, Elis se tornou uma espécie de Midas da música: tudo que ela cantava explodia. Cada jovem compositor que tinha uma música gravada e/ou cantada por ela em seus shows tinha sua carreira transformada, sendo alçado ao sucesso.

Embora já impressionasse com sua voz e talento, Elis foi rejeitada por Tom Jobim e Vinicius de Moraes. Em 1964, ela fez um teste para gravar o disco do espetáculo “Pobre Menina Rica”, composto por canções de Carlos Lyra e Vinicius, que tinha sido sucesso no ano anterior. Nara Leão, que havia participado do show, não podia participar do álbum, por estar envolvida com o famoso show “Opinião”. A dupla não aprovou a cantora e, diz a lenda, Tom teria implicado com ela, dizendo que ainda estava “cheirando a churrasco”. O disco acabou saindo com os vocais de Dulce Nunes, casada com o maestro Bené Nunes, e sem os arranjos de Tom. Já Elis ficaria famosa nacionalmente no ano seguinte e, em 1974, gravaria ao lado do Maestro Soberano o antológico álbum “Elis & Tom”, com composições dele e o famoso dueto em “Águas de Março”.

Foi assim com Milton Nascimento, João Bosco e Aldir Blanc, Renato Teixeira, Ivan Lins, Fagner e Belchior. “Conhecer a Elis foi um sonho: de repente, eu estava diante dela. Você ser lançado por ela era incrível, porque dava uma visibilidade tremenda. Ela foi importante na vida de muitos cantores”, lembra Fagner, que teve “Mucuripe”, dele e de Belchior, cantada por ela em 1972. “Os compositores mandavam as músicas para ela na expectativa de que ela gravasse. Você ficava esperando”, conta ele.

Em 1972, Fagner tinha acabado de passar uma temporada em São Paulo, onde tentou morar, mas não se adaptou. Foi, então, viver de forma improvisada em Copacabana, em um apartamento que nem sequer tinha mobília: seu primo tinha alugado o lugar, mas surgiu uma oportunidade de estudar no exterior e ele foi embora às pressas. Sempre que ia encontrar Elis e Ronaldo Bôscoli em restaurantes, o cantor cearense dizia que já havia jantado, pois não tinha dinheiro para dividir a conta. Até que um dia, ao deixá-lo em casa, Bôscoli “invadiu” o apartamento e viu as condições em que o amigo estava. Falou com Elis, e eles o convidaram para passar uma temporada com eles na mansão da Avenida Niemeyer, em São Conrado. Fagner ficou cerca de três meses por lá, até o casal se separar. “Como eu tinha sido levado pelos dois, não fiquei com ninguém. Acabei indo para a casa de outro casal, que eu conheci na casa deles”, explica.

PROBLEMAS COM OUTRAS CANTORAS

Mas se, por um lado, Elis era generosa com os jovens compositores, o mesmo não se podia dizer da estrela em relação a outras cantoras. Alaíde Costa, Nana Caymmi, Claudette Soares, Nara Leão e Claudia (hoje Claudya) foram algumas que, segundo a conta biografia de Julio Maria, sofreram boicotes da estrela. Ele analisa que competitividade era algo bem comum entre os grandes nomes da nossa música. Além disso, como observa a jornalista e pesquisadora musical Chris Fuscaldo, que prepara um livro sobre a história da mulher na música brasileira, a sociedade incentivava a competição feminina, e Elis foi vítima disso. “Assim como várias outras mulheres, que passaram a vida disputando entre si”, analisa ela.

Ao mesmo tempo, Elis tinha atitudes consideradas avançadas para a época, que abriram caminhos e inspiraram as cantoras que vieram depois dela. O apelido Pimentinha, dado por Vinicius de Moraes, referia-se à sua personalidade forte e a seu jeito de se expressar, sem papas na língua. Em 1976, quando Rita Lee foi presa, grávida, Elis foi a primeira a visitá-la, exigiu que a alimentassem e ameaçou chamar a imprensa caso ela não fosse solta. “Foi um episódio público de sororidade”, pontua Fuscaldo. Joyce também trouxe visibilidade para as compositoras Joyce Moreno, Fátima Guedes e Sueli Costa ao registrar composições delas — e da própria Rita Lee, de quem se tornou amiga depois do episódio na cadeia.

Em 1981, em uma de suas últimas entrevistas, Elis causou incômodo nos telespectadores da TV gaúcha RBS ao conceder uma entrevista com as pernas cruzadas em cima do sofá: pessoas telefonaram pedindo que ela se sentasse “com modos” — e não foram atendidas, claro. Na mesma conversa, ela defendeu a legalização do aborto. “Enquanto a gente for cínico, falso, supostamente puritano, as mulheres vão continuar correndo risco de até morrer”, disse ela. “Se esse sistema tivesse provavelmente no homem a figura que parisse, talvez o aborto fosse permitido”, defendeu.

Dediquei minha vida a cantar, e não tem homem, nem pai, nem mãe que me tire disso.

Elis Regina, em sua última entrevista

ELIS VIRAL

E é provavelmente o jeito franco, assertivo, frequentemente desbocado e engajado da cantora que faz com que ela volta e meia viralize nas redes sociais. Em um áudio de uma entrevista concedida na extinta casa de shows carioca Canecão em 1980, ela critica um show organizado por Ziraldo no Dia do Trabalhador, no Riocentro, que considera elitizado, dizendo que irá cantar em uma fábrica. “Eu sou filha de um chefe de expediente de uma fábrica, p***. É por isso que eu não estou no show de 1º de maio. Não sou filha de almirante. Vão tomar no c*, p***! Em mim não vão botar mais”, vocifera.

Em 1969, ao lado de Roberto Menescal, Elis Regina percorreu alguns países da Europa, com muito sucesso. Em entrevista a um jornal holandês, ela criticou a ditadura no Brasil, chamando os militares de “gorilas”. Na volta, foi chamada para depor no CIE — Centro de Informações do Exército. Dois anos depois, cantou o Hino Nacional num show nas Olimpíadas do Exército, o que repercutiu muito mal nos setores progressistas. Segundo seu então empresário, Marcos Lázaro, ela topou sem objeções, porque o alto cachê pedido por ela foi aceito pelos militares. Já Elis dizia que o próprio Lázaro a havia incentivado a topar, para acalmar os ânimos dos ditadores. Seja qual for o motivo, ela passou a ser muito criticada. No entanto, Elis passou a, cada vez mais, cantar um repertório engajado, o que possibilitou que a esquerda fizesse as pazes com ela. O cartunista Henfil se tornou amigo dela, e uma música gravada por ela, “O Bêbado e a Equilibrista”, de João Bosco e Aldir Blanc, se tornou um dos hinos pela Anistia dos exilados políticos.

Outro viral recente, foi um polêmico comercial em que a cantora, “revivida” por inteligência artificial, faz um dueto com a filha Maria Rita. João Marcello explica que a campanha foi concebida originalmente para uma convenção de uma montadora de carros. No entanto, se espalhou de tal forma que acabou indo parar em vários canais de TV, a maior parte das vezes de forma espontânea (de acordo com o produtor musical, só houve uma inserção paga). “Foi uma das coisas que mais colocaram a Elis em evidência que eu já vi, teve bilhões de views, tudo pelo WhatsApp. Eu dei mais de cinquenta entrevistas, falei com The Guardian, BBC, Washington Post, New York Times”, enumera o filho da artista.

A tecnologia também já permitiu que fosse lançado um dueto póstumo da cantora com Milton (“Golden Slumbers/Carry That Weight”, que saiu no tributo “Beatles’69”, em 2009). Fagner também deseja fazer um, já que nunca gravou ao lado de sua madrinha musical, e João Marcello quer um com Rita Lee também, já que ele possui a voz isolada de Elis cantando uma parte da música “Nem Luxo, Nem Lixo”, de Rita Lee. O show “Elis 80” também terá a voz da artista, remasterizada com auxílio de inteligência artificial, acompanhada por uma banda e acompanhada por Fagner, Ivan Lins e João Bosco.

O documentário “Elis Com a Palavra” terá uma turnê de lançamento, que também contará com a voz da artista acompanhada por músicos. João Marcello conta, aliás, que, há cerca de cinco anos, foi procurado pela empresa Base Hologram para realizar um show com o holograma da mãe, mas não se convenceu. “Nela, o olhar é fundamental, e o que eu vi da tecnologia não me emocionou”, garante. “A hora que der, vou fazer com o maior maior carinho do mundo”, adianta.

Raimundo Fagner, Ronaldo Bôscoli, Luís Carlos Miele e Elis num momento de criação
foto_Arquivo Nacional/Fundo Correio da Manhã
Raimundo Fagner, Ronaldo Bôscoli, Luís Carlos Miele e Elis num momento de criação
Raimundo Fagner, Ronaldo Bôscoli, Luís Carlos Miele e Elis num momento de criação

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